Terça-feira, 3 de Maio de 2011

A queda de Kadhafi e o equilíbrio de forças na África subsariana

Paulo Gorjão

 

A Gâmbia foi o primeiro país africano a reconhecer em Abril o Conselho Nacional de Transição (CNT), criado pelos rebeldes líbios em Fevereiro, como único representante legítimo da Líbia. A decisão da Gâmbia - um aliado de longa data na África ocidental de Muammar Kadhafi - tem sobretudo um valor simbólico, mas em todo o caso alerta para uma das facetas menos abordadas na mudança de regime em curso na Líbia: as suas implicações para a África subsariana, incluindo a lusófona.

Nas últimas duas décadas Kadhafi tem optado por uma estratégia de crescente afirmação na África subsariana, tanto no plano multilateral - por intermédio da União Africana (UA), na qual a Líbia é um dos membros mais influentes - como a nível bilateral.

A inevitável deposição de Kadhafi terá repercussões no âmbito da assistência financeira prestada por Trípoli e, por conseguinte, na orientação da política externa líbia para a África subsariana. Há uma forte probabilidade de o seu sucessor (oriundo do CNT ou com o seu aval) redefinir a política externa líbia, de modo a privilegiar as relações com a Europa, o Magrebe e o Médio Oriente, isto é, Norte e Este.

No âmbito da África subsariana, esta alteração estrutural tem como principais beneficiários a África do Sul e a Nigéria, uma vez que lhes permite reforçar a sua influência no continente africano. Recordo que não foi seguramente por acaso que estes dois países africanos, juntamente com o Gabão, votaram favoravelmente a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que autorizou a comunidade internacional a estabelecer uma zona de exclusão aérea na Líbia.

Um terceiro beneficiário será Angola, pelas mesmas razões, embora em menor grau. Em sentido contrário, nos países lusófonos, os grandes prejudicados serão a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, beneficiários regulares, nas últimas décadas, da ajuda financeira de Kadhafi. As relações de proximidade do presidente Malam Bacai Sanhá com Kadhafi são conhecidas e este em diversas ocasiões deslocou-se em visitas oficiais à Líbia. De igual modo, depois da insurreição militar de Abril de 2010, não passou despercebido que uma das primeiras deslocações do general António Indjai, um dos líderes das movimentações e actual CEMGFA, foi à Líbia, onde foi recebido pelo próprio Kadhafi.

O padrão de proximidade repete-se com São Tomé e Príncipe. Eleito em 2001, o presidente Fradique de Menezes visitou a Líbia nos últimos anos em várias ocasiões. O primeiro-ministro Patrice Trovoada, pouco depois de ter sido eleito, em Agosto de 2011, escolheu a Líbia como destino de uma das suas primeiras deslocações oficiais ao estrangeiro.

Para Bissau e São Tomé, a deposição de Kadhafi não tem apenas como consequência custos de natureza financeira. A mudança de regime na Líbia acarreta também custos políticos, uma vez que lhes retira espaço de manobra no relacionamento com terceiros, nomeadamente com Angola e com Portugal.

Quem diria, em retrospectiva, que a decisão de um cidadão tunisiano de se imolar pelo fogo daria lugar a uma sequência de acontecimentos que conduziria à queda de diversos líderes autoritários e que teria impacto indirecto em locais tão distintos como Abuja, Bissau, Luanda, Pretória ou São Tomé.

 

(Artigo publicado hoje no jornal i.)

publicado por IPRIS às 12:00
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A mão invisível dos EUA

Paulo Gorjão

 

Ao longo da última década, beneficiando de um amplo consenso entre Republicanos e Democratas, os EUA prosseguiram uma guerra global contra al-Qaeda cujo êxito tem sido inegável. Apesar de diversas tentativas, depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, Osama bin Laden e a al-Qaeda nunca mais conseguiram perpetrar com êxito um atentado terrorista em solo norte-americano. Todavia, o sucesso e a eficácia da política contra-terrorista norte-americana estava manchada pela incapacidade de capturar bin Laden. Assim, a sua morte acaba por ser a cereja no topo do bolo, que coloca um ponto final simbólico num ciclo que se desenrolou entre 2001 e 2011.

O desaparecimento de bin Laden, todavia, não significa que o combate contra a al-Qaeda tenha terminado. A al-Qaeda – tanto a estrutura central, como as redes filiadas – continua a ter capacidade operacional e alguns dos seus quadros principais permanecem ainda por capturar. Por exemplo, Ayman al-Zawahiri – o segundo na cadeia de comando, o líder operacional da al-Qaeda e potencial sucessor de bin Laden – continua em parte incerta, tal como Mullah Omar, líder espiritual dos Taliban.

A morte de bin Laden terá pouco significado operacional, uma vez que hoje em dia o seu papel era sobretudo doutrinário e programático. Isto dito, o seu desaparecimento contribui para reforçar a capacidade de dissuasão dos EUA. O músculo militar norte-americano já pode ter conhecido no passado dias melhores, mas os seus inimigos continuam a não estar a salvo, mesmo que se refugiem nos lugares mais discretos, ou que contem com importantes cumplicidades locais.

 

(Artigo publicado hoje no Diário Económico.)

publicado por IPRIS às 11:57
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