Domingo, 15 de Agosto de 2010

A ameaça nuclear iraniana

Por Diogo Noivo

 

Para muitos, em particular na Europa, o programa nuclear iraniano era sobretudo uma consequência da política externa da Administração de George W. Bush. Contudo, após quase dois anos de uma abordagem negocial conduzida por Barack Obama, é agora inegável que o problema reside em Teerão.

A retórica anti-americana é considerada pela ala radical iraniana como uma das chaves do êxito da Revolução Islâmica de 1979. Assim, em especial para os clérigos do regime e para a Guarda Revolucionária, qualquer cedência descaracterizará a identidade do regime. Todavia, o verdadeiro problema dos indefectíveis reside na perda de poder. O recuo no programa nuclear poderá contribuir decisivamente para colocar um ponto final no regime teocrático iraniano.

Dada a complexidade do problema, não há soluções fáceis ou imediatas. A opção militar não é viável. Mesmo tratando-se de um bombardeamento maciço, tal não eliminará a capacidade de resposta de Teerão, uma vez que a localização das instalações nucleares é apenas parcialmente conhecida. Na melhor das hipóteses, de acordo com alguns especialistas, o bombardeamento atrasaria o programa nuclear entre um a três anos. Ou seja, a solução militar apenas adiaria o problema. Por outro lado, um ataque militar fortaleceria a posição interna do Presidente Mahmoud Ahmadinejad e provavelmente extremaria as políticas interna e externa do Irão, o que tornaria ainda mais complicado gizar soluções futuras. A retaliação iraniana incluiria seguramente um corte na exportação de petróleo, afectando assim o mercado internacional de energia. Além do mais, a resposta de Teerão passaria também por uma aposta na desestabilização dos vizinhos Afeganistão e Iraque, tornando ainda mais onerosa (nos âmbitos financeiro e material, mas também humano e político) a missão dos Estados Unidos e da NATO.

Como se depreende, uma vez que a acção militar não é uma opção realista, a ameaça do uso da força carece de eficácia enquanto instrumento político. Logo, a solução mais promissora passa por uma estratégia que articule, em simultâneo, sanções internacionais e o apoio à oposição interna.

No passado, as sanções internacionais foram ineficazes e inconsequentes. Assim,  urge criar um pacote de medidas assertivas e direccionadas, capazes de prejudicar a liderança política e, dessa forma, condicionar o regime teocrático. Actualmente, o processo negocial prévio à aprovação de sanções nas Nações Unidas fez com que o resultado final consista num conjunto de medidas pouco ambiciosas. No entanto, as sanções recentemente aprovadas pela Austrália, pelo Canadá, pelos Estados Unidos e pela União Europeia levaram a que, no mês passado, o regime teocrático mostrasse disponibilidade para voltar à mesa das negociações. Contudo, para que funcionem, as sanções necessitam de um apoio internacional expressivo o que, dada a história deste processo, implica garantir o respaldo de países como o Brasil, a China, a Russia e a Turquia.

A contestação interna tornou-se evidente no Verão de 2009, quando o chamado “Movimento Verde” saiu para as ruas e mostrou ter uma determinação e um desejo de mudança capazes de enfrentar a opressão do regime. Este e outros movimentos devem ser apoiados pela comunidade internacional, pois enquanto o Irão não mudar de regime dificilmente haverá estabilidade. Mas uma ajuda Ocidental directa, especialmente norte-americana, é contraproducente. Qualquer apoio deve ter em conta a necessidade de preservar a independência dos movimentos internos e, consequentemente, a autonomia das suas reivindicações.

 

(Artigo publicado hoje no Diário de Notícias.)

 

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Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

Turquia: um aliado cooperante ou reticente?

By Diogo Noivo

 

Entre as possíveis razões que explicam o novo alinhamento regional do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan há quem destaque – entre eles o Presidente Barack Obama – o bloqueio no processo de adesão da Turquia à UE, que tem sido sucessivamente adiado nos últimos anos. Ou seja, a UE ‘forçou’ a Turquia a procurar novas alianças e a assumir uma postura diplomática mais assertiva, tal como aconteceu no caso da mediação conjunta com o Brasil no dossier iraniano.

Sem querer ignorar esta explicação, importa ter em conta o actual contexto interno turco. Desde que Ahmet Davutoglu tomou posse como ministro dos Negócios Estrangeiros, em Maio de 2009, a Turquia assumiu uma nova abordagem na sua política externa, repensando as suas prioridades, nomeadamente no âmbito regional.

Mais do que saber quem perdeu a Turquia, importa compreender a nova política externa turca e os efeitos que daí poderão advir tanto para a UE como para os EUA. Na verdade, a Turquia não tem alternativas estruturais que substituam o seu relacionamento com a UE e os EUA. Porém, em vez de um aliado cooperante, a Turquia pode tornar-se num aliado reticente. As implicações desestabilizadoras desta nuance no Médio Oriente, no Cáucaso e no Mar Negro seriam inevitáveis.

 

(Artigo publicado hoje no Diário Económico.)

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Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

Brazil, Iran, and the Security Council

By Paulo Gorjão

 

Stewart Patrick's article about Brazil's diplomatic efforts vis-à-vis Iran and the implications regarding Brasília's chances for a permanent UN Security Council seat should be read carefully. His main argument is that Brazil's "unpredictable behavior" and "anti-Americanism" might have diminished Brasília's support in the US. And he warns -- a sort of threat -- that "Washington must be confident that any new permanent members will behave as responsible stakeholders". In others words, as it was pointed out by Marcelo Valença (see pp. 2-3), it seems that choices will have to be made, sooner or later.

 

In other words, choices will have to be made by Brazil, but the US can continue avoiding any commitment regarding a timetable towards the UN reform. Some players must choose a specific diplomatic path, while others are exempt of doing so. Thucydides comes to mind: "the strong do what they can and the weak suffer what they must".

 

Of course, Brazil must conquer US support in order to guarantee a seat in the Security Council. However, US support must not be used as a blackmail device in order to impose diplomatic obedience at all cost.

 

Moreover, like Mark Twain, "the news of my death has been greatly exaggerated". Stewart Patrick, as well as others, does not need to worry. Brazil's stance towards Iran did no harm as far as its chances for a UN Security Council seat are concerned.

 

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