Terça-feira, 1 de Março de 2011

Magrebe e Médio Oriente: o medo da mudança e da sua direcção

Paulo Gorjão

 

Winston Churchill disse um dia que não há nenhum problema com a mudança, desde que seja na direcção certa. Se ainda estivesse vivo Churchill estaria a seguir com interesse os acontecimentos em curso no Magrebe e no Médio Oriente. O próprio Churchill frisaria seguramente que não é claro se os ventos da mudança, que alastram como um vírus pela região, estão a soprar na direcção certa. O único dado seguro nesta altura é que, independentemente do que vier ainda a acontecer em 2011, nada será como antes na região.

Todavia, mais do que temer o risco associado à mudança, a UE e os EUA devem olhar para os acontecimentos em curso como uma janela de oportunidade para moldar a realidade de acordo com os seus interesses, i.e. na direcção certa. Tal como aconteceu com a Europa de Leste, depois da queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, uma vez mais a UE e os EUA devem assumir um papel activo na estabilização de uma região que, em virtude da sua localização e dos seus recursos energéticos, assume uma relevância estratégica.

A preocupação com a mudança e com os riscos é compreensível. É precisamente para evitar os riscos – potenciais Estados falhados, tráfico de droga, imigração ilegal, terrorismo transnacional, entre outros – que a UE e os EUA não podem ficar passivamente à margem da mudança. Menos compreensível é a forma como alguns observadores olham com cepticismo para a possibilidade de poderem vir a existir democracias liberais no Magrebe e no Médio Oriente. Certamente poderão ocorrer desaires e frustrações, Estados em que será mais difícil consolidar regimes democráticos, porventura poderão até ocorrer retrocessos. Mas daí a assumir que a democracia liberal não tem espaço para sobreviver no Magrebe e no Médio Oriente vai uma longa distância.

Na década de 1990, a suposta singularidade dos “valores asiáticos” foi utilizada como um argumento para justificar a manutenção e a legitimidade dos regimes autoritários na Ásia. E nessa altura também se utilizou o medo como forma de tentar travar a mudança. Em retrospectiva, os receios eram infundados. A Indonésia, por exemplo, o Estado islâmico com mais população no mundo, é hoje em dia uma democracia consolidada.

Os “valores islâmicos” substituem agora os “valores asiáticos” como justificação e obstáculo à mudança, em detrimento da universalidade da democracia liberal. Infelizmente, a tese da paz democrática parece ter caído em desgraça, ou estar fora de moda, numa altura crucial. Repito o que, grosso modo, já aqui escrevi no início de Janeiro: tal como Churchill, acredito que a democracia é a pior forma de governo, com excepção de todas as outras. Acresce que, numa perspectiva de médio e de longo prazo, as transições para a democracia nos diversos países do Magrebe e do Médio Oriente correspondem não só às aspirações dos seus cidadãos, mas também aos interesses da UE e dos EUA.

Sem regimes democráticos e liberais, os países do Magrebe e do Médio Oriente serão sempre potenciais produtores de insegurança internacional. Mais do que alertar passivamente para os riscos, é crucial contribuir de forma activa para orientar os ventos de mudança. Na direcção certa, claro.

 

(Artigo publicado hoje no jornal i.)

 

publicado por IPRIS às 03:05
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