Sábado, 3 de Julho de 2010

Cimeira da CEDEAO: O reequilíbrio da política externa cabo-verdiana

Por Pedro Seabra

 

O rodopio de Chefes de Estado africanos na Ilha do Sal, em Cabo Verde, poderá ter causado alguma surpresa entre os observadores menos atentos aos recentes desenvolvimentos na região e, em particular, em Cabo Verde. Com efeito, no espaço de uma semana, a diplomacia cabo-verdiana conseguiu a proeza diplomática de servir de anfitriã ao Conselho de Ministros e à 38ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). À primeira vista, tal resumir-se-ia às tradicionais e rotineiras reuniões de organizações regionais africanas. Contudo, a CEDEAO merece um relevo distinto, quer pela sua longevidade – fundada em 1975 – quer pela sua relativa estabilidade – a título de exemplo, golpes militares e perturbações da ordem constitucional são alvo de punição, como comprovado pela actual suspensão tanto da Guiné-Conakry como do Níger.

O actual interesse de Cabo Verde na CEDEAO merece atenção, tendo em conta que os seus objectivos de política externa entre 2005 e 2007 apontavam noutra direcção. De facto, Cabo Verde chegou a anunciar publicamente no início de 2007 a intenção de fazer o downgrade da sua relação com a CEDEAO, em nome de uma eventual – e extremamente hipotética – adesão à União Europeia. Como era expectável, o desejo de aderir à UE não teve seguimento, antes tendo sido instituída uma Parceria Especial entre as duas partes em Novembro de 2007. Note-se, todavia, que Cabo Verde é o único Estado na África subsaariana merecedor de tal relacionamento privilegiado com a União Europeia.

Tirando partido da remodelação governamental de 2008, Cabo Verde recentrou a sua política externa e voltou de novo a dar atenção especial à CEDEAO. Actualmente, Cabo Verde interiorizou que a sua crescente afirmação, tanto no contexto regional, como no internacional, passa por se apresentar enquanto membro activo de uma organização regional estável e credível – e nesse sentido, Cabo Verde procura assumir uma das vice-presidências da estrutura permanente da CEDEAO – de modo a valorizar a sua posição perante os parceiros com quem deseja aprofundar relações, quer seja Angola, o Brasil, os EUA, Portugal, ou a UE, entre outros.

É este o contexto que enquadra e explica a realização na Ilha do Sal da I Cimeira entre a CEDEAO e o Brasil, que mais uma vez confirmará as boas relações que Cabo Verde é capaz de manter com actores internacionais geograficamente diversos. Ultrapassada a fase das ambições inalcançáveis e irrealistas de adesão à NATO e à UE, em 2005 e 2006, Cabo Verde encontra-se agora no caminho certo para desenvolver uma política externa mais equilibrada, a qual potencia a prossecução do auto-proclamado papel de “ponte entre três continentes”.

 

(Artigo publicado hoje em Sapo.cv.)

 

Uma versão em língua inglesa mais detalhada deste artigo pode ser lida aqui.

 

publicado por IPRIS às 16:38
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