Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Angola: a manutenção e a resolução do impasse na Costa do Marfim

Paulo Gorjão

 

Na semana passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola, George Chicoty, destacava a importância de Luanda para a resolução do impasse na Costa do Marfim. Chicoty aludia ao número de visitas a Angola – emissários das partes em conflito, mediadores, actores regionais – tendo como pano de fundo a crise na Costa do Marfim. À primeira vista, a observação de Chicoty é indiscutível. Um escrutínio mais atento, porém, revela que, pelo menos nesta fase, mais do que um actor na resolução do impasse, Angola é um interveniente decisivo na sua manutenção.

Depois das eleições presidenciais de 28 de Novembro de 2010, o Conselho de Segurança da ONU reconheceu Alassane Ouattara como o vencedor. Perante a recusa de Gbagbo em aceitar a derrota, a CEDEAO e a União Africana suspenderam a participação da Costa do Marfim no âmbito das suas actividades. O isolamento de Gbagbo tem tido lugar não só a nível multilateral, mas também no plano bilateral. A única excepção tem sido Angola que, nos últimos dois meses, foi o único aliado internacional que defendeu as suas posições (contestando a validade dos resultados eleitorais), ou assumiu uma postura (contra a intervenção militar para resolver o impasse, ou a favor da não interferência) de que Gbagbo o único beneficiário.

O posicionamento de Angola tem riscos e oportunidades. O apoio a Gbagbo, em contracorrente, pouco ou nada contribui para fortalecer a posição de Angola enquanto produtor de segurança regional e não é claro que daí decorra algum prestígio para Luanda. Numa altura em que Angola desejaria ter um papel de maior influência regional, a Costa do Marfim tem proporcionado visibilidade, mas não pelos melhores motivos. Alinhando com o pária, Luanda corre algum risco de contágio, sem que seja claro que os benefícios justifiquem os custos.

O apoio angolano a Gbagbo procura assegurar a manutenção de um aliado único no âmbito da África Ocidental e, de certo modo, insere-se na tentativa de alargar a sua influência regional. À luz deste objectivo, Luanda não se pode dar ao luxo de deixar cair a única relação privilegiada que detém nessa região sem nada em troca. Acresce que o facto de José Eduardo dos Santos ser o único aliado de Gbagbo valoriza ainda mais o seu apoio, o que, tudo somado, torna ainda mais difícil resistir à tentação.

Porém, a política externa não é um jogo de roleta russa em que se joga tudo ou nada e em que se aceitam níveis de risco no limite do irracional. O desafio da política externa angolana consiste em, ao mesmo tempo que salvaguarda os seus interesses, deixar de contribuir para a manutenção do impasse e passar a ser parte da sua solução. Luanda tem de articular uma estratégia para o que tem sido, até ao momento, um conjunto de decisões de natureza táctica. Depois de diversas tentativas fracassadas de mediação regional, Angola tem de assumir um papel activo e institucional – muito possivelmente no âmbito da União Africana – no processo de mediação. Afinal, seria uma vitória de Pirro se Luanda conseguisse salvaguardar a sobrevivência política de Gbagbo, sem com isso assegurar para si qualquer dividendo consistente de natureza diplomática.

 

(Artigo publicado hoje no jornal i.)

publicado por IPRIS às 03:19
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