Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

Portugal e as monarquias do Golfo: uma agenda unidimensional

Paulo Gorjão

 

O primeiro-ministro José Sócrates termina hoje a sua primeira visita ao Qatar e aos Emirados Árabes Unidos. Nos últimos dez anos, o fortalecimento das relações diplomáticas com as monarquias do Golfo foi apontado inúmeras vezes como uma prioridade da política externa portuguesa. Até ao momento, este empenho na região abrangeu quatro governos, três primeiros-ministros e cinco ministros dos negócios estrangeiros, tendo-se mantido inalterado apesar da alternância de partidos políticos no poder. Uma década depois do início desta aposta, justifica-se um primeiro balanço.

Antes de 2002 – altura em que José Manuel Durão Barroso tomou posse como primeiro-ministro e António Martins da Cruz como ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) – as relações políticas com as monarquias do Golfo não eram valorizadas enquanto prioridade para a diplomacia portuguesa. Fruto em larga medida das circunstâncias internas, apesar da crescente sensibilidade política em relação aos países árabes, a verdade é que no período entre 2002 e 2005 acabou por não se registar qualquer evolução digna de nota no relacionamento bilateral com as monarquias do Golfo. É sobretudo a partir de 2005 – com a tomada de posse de José Sócrates como primeiro-ministro e de Diogo Freitas do Amaral como MNE – que se começa a dar alguma substância ao relacionamento bilateral, orientação que se manteve e se aprofundou a partir de 2006 com a substituição de Freitas do Amaral por Luís Amado.

Não se pode dizer que até ao momento a aposta política tenha produzido resultados significativos. Fruto das circunstâncias internas e das limitações financeiras, Portugal tem vindo a abrir, de forma muito lenta, novas embaixadas na região. Porém, sem representação diplomática no terreno dificilmente se conseguirá aprofundar as relações com as monarquias do Golfo.

Acresce que, até ao momento, a agenda portuguesa tem vindo a revelar uma compreensível mas excessiva unidimensionalidade. O relacionamento bilateral está totalmente focado na captação de investimento e na venda de dívida soberana, sem que exista – ou se conheça, pelo menos – o que se espera do relacionamento político com as monarquias do Golfo. Ora, como demonstrou uma vez mais a recente corrida a um lugar não permanente no Conselho de Segurança, Portugal tem um capital político, não só nas monarquias do Golfo em particular mas também no Magrebe e no Médio Oriente em geral, que vale a pena valorizar.

Numa altura em que termina uma visita de Estado com um significado político que não se discute, a diplomacia portuguesa deve preparar-se para dar o passo seguinte, o qual pressupõe a formulação de uma abordagem integrada e articulada. Nesse âmbito, por exemplo, Portugal deveria identificar – e seleccionar – os temas em que é possível reforçar a cooperação política com as monarquias do Golfo, tanto ao nível bilateral como multilateral. Seguramente não faltarão no âmbito da União Europeia ou das Nações Unidas, para citar apenas os dois exemplos mais óbvios, matérias políticas em que, a partir de interesses convergentes, se podem articular posições comuns. Até porque, se outra razão não existisse, a aposta no aprofundamento da relação política não deixará de ter também repercussões positivas no relacionamento económico e financeiro.

 

(Artigo publicado hoje no i.)

publicado por IPRIS às 03:23
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