Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

Hu Jintao em Portugal: a importância de uma parceria

Paulo Gorjão

 

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, tem vindo a destacar em diversas ocasiões a progressiva afirmação e crescente preponderância do eixo Ásia-Pacífico no panorama internacional. Nessa medida, Amado tem vindo a frisar a necessidade de Portugal ajustar a sua política externa, tendo em linha de conta as mutações em curso nos equilíbrios de poder mundial. Num sinal da mais elementar coerência, nos últimos anos o ministro dos Negócios Estrangeiros visitou inúmeros países asiáticos, nomeadamente a China – a última vez que o fez foi em Abril de 2010 – e muito possivelmente no próximo ano Portugal abrirá novas representações no continente asiático.

Como se compreende, a visita de Estado a Portugal do Presidente da China, Hu Jintao, não poderia deixar de ser valorizada, tanto mais que a última visita do Presidente chinês – na altura Jiang Zemin – ocorreu em Outubro de 1999, ainda sob a sombra do processo de transferência de Macau para a soberania chinesa.

A partir dessa data, num contexto caracterizado pelo pragmatismo, as relações bilaterais têm vindo a conhecer novos desenvolvimentos e a adquirir crescente densidade. No plano económico, as relações entre os dois Estados ganharam crescente relevância: em 2000 a China era o 33º mercado para as exportações portuguesas; porém, em 2009, a China era já o 16º destino. Aparentemente, o processo de crescimento está longe de estabilizar. As exportações portuguesas para a China – de Janeiro a Agosto de 2010 – aumentaram em mais de 60%, tendo ultrapassando em oito meses o total de 2009. Relativamente às importações portuguesas, o progresso foi igualmente assinalável, tendo a China passado da 17ª para a 9ª posição entre 2000 e 2009. Assim, tendo em linha de conta estes indicadores, é difícil não acreditar que as relações económicas entre os dois países continuarão a progredir na próxima década. Um facto que tem acrescida relevância se se recordar que um dos objectivos de Portugal passa por encontrar mercados para as suas exportações em alternativa, ou em complementaridade, aos mercados europeus.

No plano político, dado que não existem grandes pontos de divergência, na última década a relação bilateral tem também vindo a fazer o seu caminho. Em Dezembro de 2005, os dois países assumiram uma “parceria estratégica global”. No quadro da União Europeia (UE), para além de Portugal, Alemanha, Espanha, França, Grécia e Reino Unido são os únicos Estados com quem a China mantém uma relação semelhante, sinal claro de que nesta matéria Lisboa está nitidamente punching above its weight. Como não poderia deixar de ser, no âmbito da UE, a China tem tido em Portugal um aliado. Por exemplo, o governo português há muito que apoia o levantamento do embargo à venda de armas imposto à China em resposta aos acontecimentos de Tiananmen de Junho de 1989.

Naturalmente, há muito ainda por fazer no sentido de consolidar cada vez mais a agenda bilateral. Sendo certo que a parceria tem uma natureza marcadamente assimétrica e a China será sempre mais importante para Portugal do que o contrário, todavia tal não impede que a relação seja mutuamente vantajosa. Se assim não fosse, em vez de se deslocar a Lisboa, Hu Jintao seguramente que teria outras prioridades na sua agenda.

 

(Publicado hoje no i.)

publicado por IPRIS às 14:35
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