Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Um primeiro passo em Cuba?

Por Pedro Seabra

 

A recentemente anunciada intenção de libertar 52 prisioneiros políticos, é a última reação do desgatado regime cubano perante a contínua pressão da comunidade internacional. Confrontado com a indignação generalizada face à morte de Orlando Zapata, às manifestações reprimidas das chamadas “Damas de Branco” e à prolongada greve de fome do activista Guillermo Farinas, o governo de Raul Castro viu-se simplesmente obrigado a ceder. Graças à pressão da influente Igreja Católica, através do Arcebispo de Havana, Cardeal Jaime Ortega, foi assim possível alcançar uma solução negociada, rapidamente assumida por muitos como um sinal de abertura e percussora de maiores reformas a médio prazo, em Cuba.

Contudo, tais expectativas devem ser refreadas. A título de exemplo, recorde-se as semelhanças com a situação em Cuba, aquando da visita do Papa João Paulo II em 1998, que coincidiu com a libertação de cerca de 100 prisioneiros e que acabou por não se traduzir em quaisquer progressos concretos assinaláveis.

De igual modo, a União Europeia aparenta preparar-se para – sob forte insistência do governo espanhol – rever a sua Posição Comum face a Cuba, dada a nova “margem de credibilidade” obtida recentemente e profusamente aplaudida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Miguel Ángel Moratinos. No entanto, as condições delineadas em 1996, de só reatar as relações oficiais em troca de melhorias significativas no respeito pelos direitos humanos, não devem ser descartadas assim tão facilmente. Pelo contrário, o que a experiência dos últimos desenvolvimentos demonstra, é que uma atitude política uniforme e coerente – em conjunto com a participação da sociedade civil – é capaz de exercer pressão suficiente sobre as autoridades locais, ao ponto de produzir resultados nessa área, ainda que ténues no contexto geral.

Nesse sentido, esta recente cedência do regime cubano não deve por isso deixar de ser ‘recompensada’ com uma nova janela de diálogo que exiba a boa-fé europeia em abordar de forma abrangente e definitiva a “questão cubana”. Contudo, dado o extenso historial de Fidel e Raul Castro em concessões pontuais, tácitas e oportunistas, seria no mínimo ingénuo começar a debater o nível de abertura implícito ou explícito do regime cubano. Por vezes, um primeiro passo, não passa disso mesmo.

 

(Artigo publicado hoje no Diário de Notícias.)

tags:
publicado por IPRIS às 18:45
link do post | favorito
partilhar

More about IPRIS


ver perfil

seguir perfil

. 1 seguidor

Search

Outubro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Recent Posts

IPRIS Viewpoints 135

IPRIS Viewpoints 134

IPRIS Viewpoints 133

IPRIS Viewpoints 132

IPRIS Viewpoints 131

IPRIS Viewpoints 130

IPRIS Viewpoints 129

IPRIS Viewpoints 128

IPRIS Viewpoints 127

IPRIS Viewpoints 126

Archives

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

tags

todas as tags

blogs SAPO

subscrever feeds